Parte integrante do livro:

Tanaka, Oswaldo Y.; Melo, Cristina. Avaliação de Programas de Saúde do Adolescente- um modo de fazer. São Paulo : Edusp, 2001.


IV ESCOLHA DAS ABORDAGENS



A escolha da abordagem teórica a ser utilizada na avaliação de programas é sempre um grande desafio para os executores da avaliação. O papel reconhecidamente predominante dos modelos teóricos quantitativos não tem permitido a compreensão dos atributos e possibilidades dos modelos qualitativos para a avaliação. Os modelos qualitativos podem complementar e aprofundar o alcance de uma avaliação.

A experiência aponta que os objetivos e resultados que se pretende alcançar através dos programas nem sempre são factíveis. Isto decorre não só das características da população-alvo (adolescentes) e do contexto, como da complexidade de lidar com aspectos relativos à saúde, o que implica quase sempre a adoção de comportamentos e práticas distintas.

Quando usar a abordagem Quantitativa e/ou a Qualitativa?

Hoje, o mais importante é ter claro que existe um interesse cada vez maior em combinar abordagens quantitativas e qualitativas na avaliação em saúde, o que significa, no mínimo, realizar uma avaliação mais abrangente.

Dentre as características de programas de saúde que reforçam a necessidade de utilizar ambas as abordagens, destacamos:

  1. o desenvolvimento do enfoque interdisciplinar, considerado como fundamental para a compreensão dos processos e resultados obtidos nos programas de saúde;
  2. o caráter coletivo do trabalho em saúde, envolvendo diversos conhecimentos e práticas exercidas por sujeitos distintos;
  3. a necessidade de descrever e explicar e interpretar os fenômenos identificados;
  4. o reconhecimento de que a maior eficácia dos procedimentos e atividades realizadas pode ser obtida ao levar em consideração a percepção e as necessidades das pessoas que os utilizam, no caso, os adolescentes.

A descrição de algumas das características que distinguem as duas abordagens também pode contribuir não só para melhor compreendê-las, como também para fazer bom uso do potencial de cada uma (Mullen and Iverson 1982).

Características gerais da abordagem Quantitativa:

  • Busca descrever significados que são considerados como inerentes aos objetos e atos, por isso é definida como objetiva;
  • Tem como característica permitir uma abordagem focalizada e pontual e estruturada, utilizando-se de dados quantitativos;
  • A coleta de dados quantitativos se realiza através da obtenção de respostas estruturadas;
  • As técnicas de análise são dedutivas (isto é, partem do geral para o particular) e orientadas pelos resultados. Os resultados são generalizáveis.

Características gerais da abordagem Qualitativa:

  • Busca descrever significados que são socialmente construídos, e por isso é definida como subjetiva;
  • Tem características não estruturadas, é rica em contexto e enfatiza as interações;
  • Através da coleta de dados qualitativos, obtêm-se respostas que são semi-estruturadas ou não-estruturadas;
  • As técnicas de análise são indutivas, orientadas pelo processo, e os resultados não são generalizáveis.

Em relação aos equívocos mais comuns que são cometidos em relação à abordagem Qualitativa, vale sublinhar:

1. A abordagem Qualitativa não deve ser confundida com a avaliação da qualidade dos serviços. A avaliação da qualidade dos serviços foi desenvolvida por Avedis Donabedian e está ancorada em dados quantitativos. Este autor adota o que chama de sete pilares da qualidade: otimização, eficiência, eficácia, efetividade, eqüidade, legitimidade, aceitabilidade (Donabedian 1990).

2. O conceito de avaliação qualitativa aqui adotado é aquele direcionado a identificar benefícios e resultados na clientela. Isto inclui a explicitação da subjetividade da percepção do outro. Do ponto de vista da organização, a qualidade é sempre definida por critérios técnico-políticos; do ponto de vista do trabalhador, além do critério anterior, a qualidade inclui a expectativa destes sujeitos. Em relação ao conceito de qualidade quando referido pela população-alvo e outros usuários, os critérios adotados têm como base a expectativa destes sujeitos (sempre mutável e flexível), que deve ser sempre conhecida e que depende fortemente de experiências acumuladas.

3. O avaliador tenta muitas vezes disfarçar a presença, necessária, da subjetividade no desenvolvimento da abordagem qualitativa. Isto, inclusive, pode prejudicar a coleta e análise da informação obtida, principalmente no uso da técnica da observação, em que as reflexões do avaliador necessariamente fazem parte da análise. Em segundo lugar, não se pode negar que a avaliação, por se consistir também na emissão de um juízo de valor, está necessariamente permeada pela visão de mundo de quem avalia. Portanto, a explicitação de critérios e de suas conseqüências e a socialização dos elementos intersubjetivos contidos no processo de avaliação, inclusive na interpretação dos resultados, são os caminhos indicados para deixar visível a especificidade buscada na abordagem qualitativa e a sua validade.

Em relação aos equívocos mais comuns que são cometidos em relação à abordagem Quantitativa, destacam-se:

1. A abordagem Quantitativa não deve ser utilizada como algo infalível e que expressa uma verdade absoluta.

2. Existe também o mito de que apenas o que pode ser expresso em números é permeado com a objetividade exigida para dar cientificidade à avaliação. No entanto, a análise e conclusões obtidas no processo de avaliação adotando-se a abordagem Quantitativa não estão isentas da visão de mundo e dos valores de quem a faz. O mais importante é ser rigoroso na execução da avaliação e deixar sempre claro quais os elementos que foram adotados (abordagem, técnicas, instrumentos, etc.) e que permitiram as conclusões obtidas.

Considerando as características fundamentais dos serviços e dos programas de saúde, e a importância de incorporar a avaliação como uma atividade cotidiana dos profissionais do setor, é recomendável que se inicie o processo de avaliação pela utilização da abordagem Quantitativa, tendo em vista a maior facilidade e disponibilidade de informações que podem ser utilizadas neste contexto. Isto permite, no mínimo, uma primeira aproximação com o objeto a ser avaliado. Deste modo, a abordagem Quantitativa pode ser utilizada como um ponto de partida para a incorporação da avaliação nos programas, serviços ou sistemas.

Para iniciar o processo de avaliação é necessário que os envolvidos adotem o princípio da realidade, partindo das condições existentes. Isso contribui para desmistificar a necessidade de um conhecimento especializado para a execução de processos avaliativos. Este começo deve levar em consideração as condições existentes para iniciar um processo que possa ser factível e aperfeiçoado ao longo do tempo.

Para obter o melhor equilíbrio possível na utilização das abordagens, algumas "dicas" são oferecidas no Quadro 8 a seguir. As "dicas" estão relacionadas a resultados (numéricos ou individuais); a componentes que se quer avaliar (se cobertura ou se a dinâmica de um programa) ou a relações (entre variáveis ou de identidade), que estabelecem as diferenças básicas para a escolha da abordagem Quantitativa ou Qualitativa ou ambas. Lembre-se! As abordagens não são excludentes!

 

QUADRO 8 _ QUANDO UTILIZAR A ABORDAGEM QUANTITATIVA E/OU QUALITATIVA

QUANDO UTILIZAR A ABORDAGEM QUANTITATIVA QUANDO UTILIZAR A ABORDAGEM QUALITATIVA

  1. PARA AVALIAR RESULTADOS QUE PODEM SER CONTADOS E EXPRESSOS EM NÚMEROS, TAXAS, PROPORÇÕES.
  2. PARA CONHECER A COBERTURA E A CONCENTRAÇÃO DO PROGRAMA.
  3. PARA CONHECER A EFICIÊNCIA DO PROGRAMA.
  4. PARA RESPONDER A QUESTÕES RELATIVAS A QUANTO.
  5. PARA AVALIAR ATIVIDADES CUJOS OBJETIVOS SEJAM BASTANTE ESPECÍFICOS.
  6. QUANDO O OBJETO A SER AVALIADO POSSUI DIFERENÇAS DE GRAU (EXIGINDO UMA LÓGICA DE MAIS OU DE MENOS).
  7. QUANDO SE BUSCA ESTABELECER RELAÇÕES SIGNIFICATIVAS ENTRE VARIÁVEIS.
  1. PARA AVALIAR RESULTADOS INDIVIDUAIS DOS PARTICIPANTES DE UM PROGRAMA, SERVIÇO OU ATIVIDADE.
  2. PARA RESPONDER A QUESTÕES SOBRE COMO, O QUÊ E POR QUÊ.
  3. PARA AVALIAR A DINÂMICA INTERNA DE PROCESSOS E ATIVIDADES.
  4. PARA OBTER UMA DESCRIÇÃO GLOBAL E DESTACAR AS NUANCES DE UM PROGRAMA OU SERVIÇO.
  5. PARA AVALIAR ATIVIDADES CUJOS OBJETIVOS SÃO GERAIS E POUCO ESPECÍFICOS.
  6. QUANDO SE QUER PERSONALIZAR O PROCESSO DE AVALIAÇÃO.
  7. QUANDO A COLETA DE DADOS QUANTITATIVOS É TÃO ROTINEIRA QUE NÃO SE PRESTA MAIS ATENÇÃO AO SIGNIFICADO EXPRESSO POR ELES.
  8. QUANDO O OBJETO A SER AVALIADO POSSUI DIFERENÇAS DE GÊNERO.

Fonte: adaptado de Mullen PD and Iverson D. Qualitative Methods for Evaluative Research in Health Education Programs. 1982; Health Education.

Os pressupostos mínimos exigidos pela abordagem Quantitativa e Qualitativa estão relacionados com diversos fatores do contexto institucional e com o para quê da avaliação, tais como:

  • recursos e condições políticas;
  • recursos de conhecimento teórico e prático exigidos na execução da avaliação;
  • recursos materiais, como dinheiro e o tempo do trabalho das pessoas participantes do processo de avaliação.

Algumas perguntas podem auxiliar na definição dos recursos mínimos exigidos e devem ser feitas em relação aos pontos destacados a seguir, antes da decisão quanto à avaliação a realizar.

  1. Qual o objeto da avaliação:

  • destacar, descrever e analisar um fenômeno (o que exige uma abordagem quantitativa)?
  • explicar e interpretar, aprofundando o significado e a intenção do fenômeno produzido (o que exige uma abordagem qualitativa)?
  • ou ambas?

  1. Quais os dados disponíveis?
  2. Quanto tempo é disponível para realizar a avaliação?

O que distingue a abordagem Quantitativa da Qualitativa está além do uso dos instrumentos e técnicas. Muitas vezes, a opção por determinados instrumentos pode induzir a compreensão equivocada quanto à abordagem utilizada. As diferenças entre tais abordagens são múltiplas, como mostramos anteriormente. A seguir destacamos as vantagens e desvantagens do uso de ambas no Quadro 9.

 

QUADRO 9 _ VANTAGENS E DESVANTAGENS NA ADOÇÃO DAS ABORDAGENS QUANTITATIVA E QUALITATIVA

ABORDAGEM

ASPECTOS

QUANTITATIVA QUALITATIVA
VANTAGENS

  • POSSIBILITA A ANÁLISE DIRETA DOS DADOS
  • TEM FORÇA DEMONSTRATIVA
  • PERMITE GENERALIZAÇÃO PELA REPRESENTATIVIDADE
  • PERMITE INFERÊNCIA PARA OUTROS CONTEXTOS
  • PERMITE INTERAÇÃO
  • CONSIDERA A SUBJETIVIDADE DOS SUJEITOS
  • PERMITE COMPREENDER RESULTADOS INDIVIDUALIZADOS
  • PERMITE COMPREENDER A DINÂMICA INTERNA DE PROGRAMAS E ATIVIDADES
  • PERMITE COMPREENDER MÚLTIPLOS ASPECTOS DOS PROGRAMAS E/OU SERVIÇOS
  • PERMITE AVALIAR RESULTADOS DIFUSOS E NÃO-ESPECÍFICOS
  • DESVANTAGENS
    • SIGNIFICADO É SEMPRE SACRIFICADO EM DETRIMENTO DO RIGOR MATEMÁTICO EXIGIDO PELA ANÁLISE
    • NÃO PERMITE ANÁLISE DAS RELAÇÕES
    • OS RESULTADOS PODEM SER CONSIDERADOS COMO VERDADE ABSOLUTA
    • PODE CONDUZIR A UMA EXCESSIVA COLETA DE DADOS

    • DEPENDE DE UMA CAPACIDADE MAIOR DE ANÁLISE POR PARTE DO AVALIADOR

    • EXIGE MAIOR USO DO RECURSO TEMPO

     

     

     


    © copyright
    BIREME / OPAS / OMS

    http://www.adolec.br