Saúde, Doenças, Corpo

Afetividade, sexualidade e sociedade

Provavelmente, vocês não aguentam mais ouvir alguém falar coisas do tipo: no meu tempo, os/as jovens eram isso ou aquilo... no meu tempo, sexo era encarado assim ou assado ... no meu tempo ...

Mas, nada de pânico. Este texto não veio forçar nada disso. Muito pelo contrário!

As coisas mudaram muito de lá para cá e várias delas para melhor.

Para vocês terem uma idéia, para se obter simples informações sobre a sexualidade em algumas décadas atrás era a maior dificuldade. E quando se conseguia essas informações, elas eram centradas só no plano biológico, nos órgãos sexuais mesmo. Era como se a sexualidade não tivesse nada a ver com o resto do corpo, com os sentimentos das pessoas, com os valores e preconceitos existentes em uma sociedade, tal qual a definimos hoje.

Se falar sobre sexualidade hoje ainda é meio problemático, imagine como foi isso no passado!

Hoje, pelo menos, o tema é bem mais visível e a sociedade, guardadas as devidas proporções, tem demonstrado até uma atitude mais tolerante perante a sexualidade dos/as jovens, assim como em relação à homossexualidade. Tanto que, mesmo que as escolas e as famílias não se animem a falar sobre sexualidade e afeto, são vários os espaços, onde já é possível, para as camadas jovens, não só ouvir especialistas falando, mas se discutir de igual para igual sobre os diferentes aspectos da sexualidade e da afetividade, não só no plano biológico mas também sobre as sensações, as emoções e os conflitos que existem num relacionamento; sobre contracepção; sobre a prevenção das dst/aids; sobre a necessidade de se adquirir habilidades para se tomar decisões acertadas e para resistir à pressão do grupo; sobre as diferenças entre os gêneros feminino e masculino; sobre como a mídia trata a sexualidade; sobre como o preconceito afeta a auto-estima das pessoas. Basta observar o número de programas na televisão e de publicações que tem a juventude como sua principal audiência. Também pudera, os/as jovens entre 15 e 24 anos no país chega a 32 milhões.

Vulnerabilidade

Até aí tudo bem , mas se de um lado a juventude está mais informada a respeito de sua sexualidade e de como lidar com ela, de outro ainda existem muitos pontos onde fica claro que a juventude ainda está muito vulnerável, ou seja, exposta a situações que possam lhe trazer problemas ou prejudicála. Quando pensamos em drogas, aids, gravidez na adolescência, violência, isso fica mais evidente.

Vulnerabilidade é um termo da advocacia internacional pelos Direitos Universais da Humanidade, que designa originalmente grupos ou pessoas fragilizadas, jurídica ou politicamente, na promoção ou garantia de seus direitos de cidadania.

Este conceito vem muito utilizado no campo da prevenção da aids, mas pode muito bem ser ampliado quando se pensa nas dificuldades que os/as adolescentes e a sociedade em geral têm em lidar com vários aspectos da sexualidade e da saúde reprodutiva, pois pretende estabelecer uma síntese entre comportamentos individuais, sociedade, cultura e políticas públicas.

Pensando num plano mais individual, é possível perceber que um dos pontos que os/as jovens são mais vulneráveis diz respeito ao autoconhecimento e à auto-estima de cada um/a.

Em uma relação amorosa, por exemplo, quando uma pessoa não se conhece direito, não se gosta e não respeita seus próprios sentimentos, acaba deixando seus desejos e seus valores de lado e aceitando, incondicionalmente, a vontade do outro. É claro que essa relação não vai ser prazerosa para ela, já que deixou de ser sujeito de sua própria sexualidade.

O mesmo acontece com o grupo de amigos/as. De um lado, ele funciona como um apoio às inquietações e à necessidade de se sentir aceito/a e amado/a, mas, muitas vezes, acaba limitando os desejos das pessoas que fazem parte dele, seja pelas regras muito rígidas, pela pressão que exercem sobre as ações uns dos outros, pela cobrança de que todos façam coisas que nem sempre combinam com os valores individuais, etc.

A família, por sua vez, muitas vezes é responsabilizada por todos as infelicidades do mundo jovem. Mas há que se dar um desconto pois nem sempre ela se sente preparada para responder aos anseios de seus filhos e filhas. Vale lembrar que os pais e as mães de hoje tiveram muito menos acesso à informação sobre sexualidade, além do que devem ter tido uma educação muito mais repressiva que a de agora. E se ainda não bastasse, querendo ou não, o mundo se tornou muito mais perigoso! Não tem como não se preocupar.

As próprias condições de vida do/a jovem determinam seu maior ou menor grau de vulnerabilidade. Evidentemente, o fato dele/a habitar uma determinada região, freqüentar uma determinada escola, ter ou não ter seus direitos respeitados, etc, exerce influência na sua possibilidade de obter informações, ter acesso aos métodos, estar exposto ou não a situações de violência, etc.

Resumindo, a juventude é um fase da vida onde se tem que aprender a lidar com muita coisa nova e, na falta de experiências anteriores, muitas das decisões tomadas podem se mostrar, ao final, uma tremenda de uma roubada. Para evitar que isso aconteça é necessário se conhecer muito bem, valorizar suas qualidades, saber o que quer e em que acredita e reconhecer as situações que podem se tornar uma verdadeira armadilha e cair fora delas e, na medida do necessário, buscar ajuda.

A conclusão a que podemos chegar com isto tudo é que mais do que uma característica pessoal, a sexualidade e a afetividade é uma questão muito mais ampla. Está relacionada também à violação dos direitos humanos, uma vez que o acesso a escola, serviços de saúde, moradia, alimentação, trabalho, segurança, vêm sendo negados a uma boa parte da população. Portanto, sexualidade e afetividade, deve ser vista não só como uma questão pessoal, mas também uma questão política.

Bibliografia

Arilha, M e Calazans G. Sexualidade na Adolescência: o que há de novo? in Jovens Acontecendo na Trilha das Políticas Públicas - Volume 2. CNPD, Brasília.1998.

Ayres, J. R. O jovem que buscamos e o encontro que queremos ser. São Paulo, Casa de Edição, FDE/Idéias 29, 1966.

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Autor: Comunicação e Sexualidade - ECOS

Última atualização: 2006-10-19 16:42

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